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Democracia

Submetido em 24/08/10 - 11:27 PM

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Texto inspirado em duas edições do programa Questões de Moral de Joel Costa:
As Primícias de uma Sociedade Fria e Uma Teologia Democrática.

A palavra Democracia é ela própria subvertida nos dias de hoje. “Demos” não significa povo mas sim multidão, o que é significativamente diferente. Um povo é constituído por indivíduos e fortalecido por eles, pelas suas capacidades e contributos.

Por isso é que o Hitler adorava o seu “volk” (povo), porque ele via-se como a cabeça, o cérebro, de um magnífico corpo, do qual cada um dos indivíduos era uma célula. E se por um lado o Nazismo acorrentava o livre arbítrio, ele deu aos seus indivíduos uma sensação de pertença e de valor próprio semelhante (e que visava substituir, ocupar o lugar) à relação do ser humano primordial com o seu corpo maior, a sua Mãe, a Mãe-Terra (lembremos que as civilizações mais antigas entendiam que viviam ainda dentro do útero da sua Mãe, que tudo o que os rodeava era parte do seu corpo e do corpo Dela, como agora se compreende no conceito moderno de célula, um conceito já existente ancestralmente). Repare-se também que o Nazismo usou o conceito da Terra, não enquanto planeta, mas enquanto ser místico, enquanto corpo, uma Terra sagrada chamada Alemanha a que cada um dos indivíduos pertencia e em que cada um vivia. Porque é isto tão atraente para o ser humano? Exactamente porque temos na nossa memória genética colectiva (subconsciente colectivo) a tensão provocada pelo corte da ligação à nossa Mãe-Terra, o que torna a re-ligação (que curiosamente mas não surpreendentemente é a origem da palavra religião, do latim “religare”) uma necessidade urgente e tão potente.

Assim, enquanto indivíduos, re-ligamo-nos a tudo o que estiver à mão e nos faça algum sentido... e a oferta é vasta! Por este mesmo motivo, se usa o nome mântrico da tal sagrada e mística Mãe-Terra para a centralização de poder e a implementação do Novo Mundo, iniciada nos finais do século XV com a apelidada “conquista” e “descoberta” do... Novo Mundo. Olhemos para a evolução da História a partir daí e verificaremos uma linhagem, uma direcção curiosa rumo a uma globalização centralizada, na qual a artificialmente criada super-potência Estados Unidos da América, através dos seus vários estágios de “gestação” (colonial, estatal e corporativo) tem tido um papel preponderante – daí a inclusão da frase em latim no selo dos E.U.A. “Novus Ordo Seclorum” (Nova Ordem das Eras ou da Eternidade em Português, mas dado que o conceito de “Era” e o conceito de “Mundo” estão ligados a nível mitológico, místico e psicológico (ambos tendem para o infinito, por assim dizer e estão interdependentes – de notar que nalgumas traduções da Bíblia, a palavra “aeon foi traduzida como “mundo”), pode ler-se como Nova Ordem dos Mundos ou do Mundo Eterno).

Já agora uma nota: sim, os E.U.A. passaram oficialmente (ainda que não publicamente) a Corporação em 1871 (ver por exemplo http://www.serendipity.li/jsmill/us_corporation.htm e http://www.usavsus.info).

Voltemos ao assunto original. Já toquei ao de leve no conceito de “povo” em que supostamente a palavra “demos” se traduz. Vejamos agora a tradução mais adequada, ou seja, “multidão”.

Uma massa de pessoas torna-se num ser único e irracional, absorvendo a individualidade de cada um dos seus elementos. Veja-se uma manifestação ou um jogo de futebol ou um ritual religioso. Veja-se como a multidão se rege por conceitos de existência bem diferentes dos seus indivíduos constituintes. Veja-se também a diferença entre um búfalo isolado e uma manada destes pesados mamíferos...

O poder da multidão é assim, o poder dos brutos – não porque os seus elementos individuais sejam por natureza brutos, mas porque em massa (e o ser humano tem, como já referi, a necessidade urgente de pertencer, logo de se associar em massa, entregando até, se necessário for, a sua razão, o seu “logos”) a brutalidade é inevitável. Para começar, não há debate ou raciocínio possível, há acção e emoção (sejam elas de que natureza forem). A multidão é e sempre foi um instrumento de guerra, por estes motivos. Mesmo quando o pacifismo é aparente (e ninguém disse que não se lutam guerras sem violência física), o elemento combativo está lá, tantas vezes poderoso e esmagador num silencioso sorriso. A brutalidade, inerente à multidão, é assim o factor dominante na Democracia. Devo agora dizer que a existência de violência nunca causou, por si só, problemas de maior na coexistência humana. O que os causa é o falso amor. A falsidade perante si próprio, enquanto indivíduo, e enquanto membro de uma tribo ou de um grupo. É aí que reside a semente da brutalidade na violência. Um gnu sabe que um leão o vai comer se o apanhar, por isso foge. Uma ovelha ama o seu pastor...

Em qualquer dos casos, a Democracia em si é apenas e somente a fachada, o espectáculo, a novela de entretenimento que oculta o verdadeiro poder. Se a multidão puder ser guiada emocionalmente e se sentir que pertence a algo maior e grandioso (a amenização do tal trauma primordial do corte com a Mãe), obtemos então o tal “volk” de Hitler, que nunca deixou de existir – só que em vez de unidos pela nação, estão agora unidos pela globalização, ou pela própria Democracia enquanto conceito abstracto, ou pela salvação da Terra. O Hitler simbólico, conforme nós o temos na nossa psique, a personagem, mudou de casa e habita agora o centro do mundo (vem-me de repente à cabeça o conceito do “Rex Mundi”, o Rei do Mundo dos Cátaros, tão queridos do próprio Hitler), escondido da vista, mas presente como uma sombra em cada aspecto da vida social. É esta a verdadeira função da Democracia actual: a ocultação por distracção da fonte do verdadeiro poder central, enquanto este estende os seus tentáculos. E se na Democracia todos temos de estar contentes ou de almejar esse contentamento, lembremo-nos dos fundamentos do Corporativismo, que é outra palavra para Socialismo (a sociedade do livro “1984” de George Orwell era Socialista...): Todos trabalham para uma única corporação gigantesca e todos detêm uma percentagem de acções e produzem portanto lucro colectivo. Todos recebem os frutos de lhe pertencer e a corporação trata de disponibilizar os meios para apaziguar todas as tensões e ansiedades (ver, como um magnífico exemplo e momento cinematográfico, um excerto do filme “Network” de 1976, no qual a utilização de linguagem mística é intensiva: http://www.youtube.com/watch?v=RzSj1yNZdY8). Não está esta definição mais próxima do nosso esquema social actual? Não é portanto a Democracia um instrumento místico e psicológico que contacta directamente com a nossa psique mais profunda e ancestral, para nos afastar ainda mais dela, através da substituição da realidade pela artificialidade? O que tem vindo a acontecer desde a implementação da Democracia moderna? Não temos vivido menos, mas estado vivos mais tempo? Não temos estado mais entretidos, mas menos conscientes? Não consumimos nós o símbolo em vez do objecto? A imagem do limão no rótulo em vez do limão real, de cheiro e de textura e de sabor? Não habitamos nós cada vez mais um mundo virtual em vez de um mundo real, com pessoas de carne e osso e não “avatares” (que é uma palavra mística até à quinta casa!) ou perfis “online”?

Tudo isto não é consequência da Democracia, desengane-se. É sim reforçado por ela. A origem de tudo isto está no desbravamento do “Admirável Mundo Novo” dirigido pelo Rei do Mundo (o tal “Rex Mundi” Cátaro) sempre escondido e se calhar até tão inexistente como o “Big Brother” de Orwell, mas tão real quanto o seu poder enquanto símbolo for fortalecido pelo nosso contentamento. Os líderes verdadeiros do mundo (nenhum dos quais está entre os que se vêem na T.V. ou nos que têm sequer representação psicológica para nós) vão mudando a tenda do Circo e o Espectáculo que lá se desenrola. O actual tem por base esse conceito abstracto chamado de Democracia.

 Rui Diniz

Autor: Rui Diniz rd@ruidiniz.net

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